Decisão · STJ

STJ RHC 189639

Rel. JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT)julgado em 2023-11-07publicado em 2024-04-12
CIVIL
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. LAVAGEM DE DINHEIRO. AUSÊNCIA DE CONTEMPORANEIDADE DA PRISÃO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. REQUISITOS DA CUSTÓDIA. INTEGRANTE DO "PCC". ORCRIM COMPLEXA E BASTANTE ESTRUTURADA. INSUFICIÊNCIA DAS MEDIDAS CAUTELARES ALTERNATIVAS. ALEGADA DESPROPORCIONALIDADE DA PRISÃO EM COTEJO À FUTURA PENA. IMPOSSÍVEL INFERIR REGIME PELA VIA DO WRIT. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Verificou-se que a tese defensiva de ausência de contemporaneidade da prisão preventiva não foi objeto de análise pelo Tribunal de origem (acórdão de fls. 294-317), o que inviabiliza o exame por esta Corte Superior, sob pena de se incorrer em indevida supressão de instância. Precedentes. 2. Extraiu-se do decreto prisional fundamentação idônea para a custódia cautelar, pois há indícios de que o recorrente integra organização criminosa altamente estruturada, denominada Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no Estado do Paraná, sendo o acusado um dos responsáveis pela movimentação financeira do referido grupo criminoso. 3. Pacífico é o entendimento nesta Corte Superior de que a periculosidade do agente e " a necessidade de se interromper ou diminuir a atuação de integrantes de organização criminosa, enquadra-se no conceito de garantia da ordem pública, constituindo fundamentação cautelar idônea e suficiente para a prisão preventiva" (HC n. 95024/SP, PRIMEIRA TURMA, Rel. Ministra CÁRMEN LÚCIA, DJe 20/02/2009, sem grifos no original), (HC n. 371.769/BA, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, DJe 15/05/2017). Precedentes. 4. Com efeito, a jurisprudência desta Corte Superior é no sentido de que justifica a prisão preventiva o fato de o acusado integrar organização criminosa, em razão da garantia da ordem pública, quanto mais diante da complexidade dessa organização, evidenciada no número de integrantes e presença de diversas frentes de atuação. Precedentes. 5. Havendo a indicação de fundamentos concretos para justificar a custódia cautelar, não se revela cabível a aplicação de medidas cautelares alternativas à prisão, visto que insuficientes para resguardar a ordem pública. Precedentes. 6. No que concerne à alegação de desproporcionalidade da prisão em cotejo à futura pena a ser aplicada, o Superior Tribunal de Justiça possui entendimento no sentido de que "trata-se de prognóstico que somente será confirmado após a conclusão do julgamento da ação penal, não sendo possível inferir, nesse momento processual e na estreita via ora adotada, o eventual regime prisional a ser fixado em caso de condenação (e consequente violação do princípio da homogeneidade). A confirmação (ou não) da tipicidade da conduta do agente e da sua culpabilidade depende de ampla dilação probatória, com observância aos princípios do contraditório e da ampla defesa, o que não se coaduna com a finalidade do presente instrumento constitucional" (AgRg no RHC 144.385/MG, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 13/04/2021, DJe 19/04/2021). 7. Agravo regimental desprovido. RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto por FRANK DO NASCIMENTO FRANCA, contra decisão que negou provimento ao recurso em habeas corpus. Consta dos autos que o recorrente foi preso preventivamente e denunciado pela suposta prática dos crimes previstos no art. 2º, caput e §§ 2º e 4º, IV, da Lei n. 12.850/2013 e no art. 1º, caput e § 2º, I e IV, da Lei n. 9.613/1998. Impetrado writ perante o Tribunal de origem, a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná denegou a ordem pleiteada no Habeas Corpus n. 0049153- 78.2023.8.16.0000. Segue a ementa do acórdão (fls. 294-295): "HABEAS CORPUS - IMPUTAÇÃO DOS DELITOS PREVISTOS NOS ARTS. 2º, CAPUT E §§ 2º E 4º, INC. IV, DA LEI 12.850/13, E ART. 1º, CAPUT E §§ 2º, INC. I E 4º, DA LEI N. 9.613/98 (CRIMES DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA E DE LAVAGEM DE DINHEIRO) - ALEGAÇÃO DE EXCESSO DE PRAZO PARA O OFERECIMENTO DA DENÚNCIA - INOCORRÊNCIA - PRISÃO PREVENTIVA DECRETADA EM 04/07/2023 E DENÚNCIA OFERECIDA EM 25/07/2023, COM RECEBIMENTO NO DIA 28/07/2023 - DESÍDIA ESTATAL NÃO VERIFICADA - FEITO COMPLEXO, CONTANDO COM 07 (SETE) RÉUS, ENVOLVENDO ACUSAÇÕES DA PRÁTICA DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA (PCC) E DE LAVAGEM DE DINHEIRO, COM NECESSIDADE DE DILIGÊNCIAS, ANÁLISE DE PEDIDOS DEFENSIVOS, ALÉM DE DIVERSAS TESTEMUNHAS A SEREM OUVIDAS - TRAMITAÇÃO REGULAR DO FEITO. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DOS REQUISITOS AUTORIZADORES PARA MANUTENÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA DO PACIENTE - INOCORRÊNCIA - CUSTÓDIA CAUTELAR FUNDAMENTADA, CONCRETAMENTE, NA GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA E DA ORDEM ECONÔMICA - PROVAS DA MATERIALIDADE DELITIVA E INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA (FUMMUS COMISSI DELICTI) - FUNDADO RECEIO DE REITERAÇÃO DELITIVA, DIANTE DO MODUS OPERANDI UTILIZADO (PERICULUM LIBERTATIS) - INDÍCIOS DE ATUAÇÃO EM ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA, FIGURANDO, EM TESE, COMO UM DOS RESPONSÁVEIS PELA MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA DO PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL (PCC) - NECESSIDADE DE INTERROMPER O CICLO ILÍCITO - PRISÃO PREVENTIVA DEVIDAMENTE MOTIVADA - MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS QUE NÃO SE MOSTRAM, NESTE MOMENTO, SUFICIENTES E ADEQUADAS - O FATO DO PACIENTE POSSUIR CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS, POR SI SÓ, NÃO OBSTA A DECRETAÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA EM SEU DESFAVOR - CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. CONHECE E DENEGA A ORDEM". Daí a interposição do recurso em habeas corpus, no qual a defesa sustentou, em síntese, a ausência de fundamentação da decisão que decretou a prisão preventiva do recorrente, porquanto ausentes os requisitos elencados no art. 312 do CPP. Aduziu que "das buscas realizadas em sua residência, nenhum ilícito foi encontrado, seus aparelhos celulares encontram-se apreendidos, e as suas empresas fechadas, contas bloqueadas, não havendo, assim, qualquer probabilidade de atrapalhar o bom andamento das investigações" (fl. 329). Defendeu que, em caso de eventual condenação, o recorrente poderia iniciar o cumprimento de pena em regime diverso do fechado, razão pela qual a sua prisão viola os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Frisou a ausência de contemporaneidade da prisão e alegou que a decisão que decretou a prisão se baseou na gravidade em abstrato do crime e na repercussão social do delito, sem a indicação de nenhum elemento concreto. Asseverou que o recorrente é tecnicamente primário, possui endereço fixo e profissão lícita, sendo suficiente a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão. Requereu, liminarmente e no mérito, a revogação da prisão preventiva, ainda que mediante a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão. A liminar foi indeferida (fls. 741-744). As informações foram prestadas (fls. 749-779). O Ministério Público Federal se manifestou pelo desprovimento do recurso, nos termos da seguinte ementa (fl. 783): "RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. CRIME DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. PRISÃO PREVENTIVA. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. GRAVIDADE CONCRETA DA CONDUTA. PERICULOSIDADE DO AGENTE. FORTES INDÍCIOS DE QUE O RECORRENTE INTEGRA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA COMPLEXA E ESTRUTURADA VOLTADA À PRÁTICA DE CRIMES GRAVES. CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS E MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS DA PRISÃO. INSUFICIÊNCIA, SE PRESENTES OS REQUISITOS DA SEGREGAÇÃO PROVISÓRIA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CONFIGURADO. PARECER PELO DESPROVIMENTO DO RECURSO. - A prisão preventiva se justifica para salvaguardar a ordem pública, ante a gravidade concreta da conduta, a periculosidade social do agente e a necessidade de se evitar a reiteração delitiva, na medida em que os autos apontam que o recorrente integra organização criminosa complexa e estruturada voltada à prática de crimes graves, tais como homicídios, porte de armas, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas - Por tais razões mostra-se insuficiente a aplicação de quaisquer das medidas cautelares subsidiárias à prisão, previstas no art. 319 do CPP. - Condições pessoais favoráveis não têm o condão, de per si, de autorizar a revogação da constrição cautelar quando esta seja recomendada por outros elementos dos autos. - Parecer pelo não provimento do recurso ordinário". Na sequência, neguei provimento ao recurso em habeas corpus (fls. 795-799). Daí o presente agravo regimental, no qual a defesa reitera os argumentos da inicial e alega a ausência dos requisitos da prisão preventiva. Aduz ser possível a análise da tese de ausência de contemporaneidade da prisão, haja vista que o habeas corpus pode ser impetrado sem a necessidade de prequestionamento. Sustenta a inexistência de indícios de que o agravante integra organização criminosa e destaca que não restou evidenciado o abalo da garantia da ordem pública. Requer a reconsideração da decisão agravada ou a submissão da matéria ao colegiado, pugnando-se pela revogação da prisão preventiva. É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. LAVAGEM DE DINHEIRO. AUSÊNCIA DE CONTEMPORANEIDADE DA PRISÃO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. REQUISITOS DA CUSTÓDIA. INTEGRANTE DO "PCC". ORCRIM COMPLEXA E BASTANTE ESTRUTURADA. INSUFICIÊNCIA DAS MEDIDAS CAUTELARES ALTERNATIVAS. ALEGADA DESPROPORCIONALIDADE DA PRISÃO EM COTEJO À FUTURA PENA. IMPOSSÍVEL INFERIR REGIME PELA VIA DO WRIT. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Verificou-se que a tese defensiva de ausência de contemporaneidade da prisão preventiva não foi objeto de análise pelo Tribunal de origem (acórdão de fls. 294-317), o que inviabiliza o exame por esta Corte Superior, sob pena de se incorrer em indevida supressão de instância. Precedentes. 2. Extraiu-se do decreto prisional fundamentação idônea para a custódia cautelar, pois há indícios de que o recorrente integra organização criminosa altamente estruturada, denominada Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no Estado do Paraná, sendo o acusado um dos responsáveis pela movimentação financeira do referido grupo criminoso. 3. Pacífico é o entendimento nesta Corte Superior de que a periculosidade do agente e " a necessidade de se interromper ou diminuir a atuação de integrantes de organização criminosa, enquadra-se no conceito de garantia da ordem pública, constituindo fundamentação cautelar idônea e suficiente para a prisão preventiva" (HC n. 95024/SP, PRIMEIRA TURMA, Rel. Ministra CÁRMEN LÚCIA, DJe 20/02/2009, sem grifos no original), (HC n. 371.769/BA, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, DJe 15/05/2017). Precedentes. 4. Com efeito, a jurisprudência desta Corte Superior é no sentido de que justifica a prisão preventiva o fato de o acusado integrar organização criminosa, em razão da garantia da ordem pública, quanto mais diante da complexidade dessa organização, evidenciada no número de integrantes e presença de diversas frentes de atuação. Precedentes. 5. Havendo a indicação de fundamentos concretos para justificar a custódia cautelar, não se revela cabível a aplicação de medidas cautelares alternativas à prisão, visto que insuficientes para resguardar a ordem pública. Precedentes. 6. No que concerne à alegação de desproporcionalidade da prisão em cotejo à futura pena a ser aplicada, o Superior Tribunal de Justiça possui entendimento no sentido de que "trata-se de prognóstico que somente será confirmado após a conclusão do julgamento da ação penal, não sendo possível inferir, nesse momento processual e na estreita via ora adotada, o eventual regime prisional a ser fixado em caso de condenação (e consequente violação do princípio da homogeneidade). A confirmação (ou não) da tipicidade da conduta do agente e da sua culpabilidade depende de ampla dilação probatória, com observância aos princípios do contraditório e da ampla defesa, o que não se coaduna com a finalidade do presente instrumento constitucional" (AgRg no RHC 144.385/MG, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 13/04/2021, DJe 19/04/2021). 7. Agravo regimental desprovido.
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